A ministra também está certa ao dizer que “não tem como despolitizar” a morte da irmã. E acerta mais uma vez ao afirmar que o assassinato de Marielle foi “um marco político”. Mas, com todo respeito, comete um equívoco ao dizer o crime representa “o ápice da violência política no país”. Por mais que se admita que o exagero tenha sido motivado pela dor da perda de uma irmã querida, a afirmação está longe de corresponder à verdade.
A história do Brasil, infelizmente, registra dezenas de crimes com motivações políticas e a maioria deles continua sem resposta. Num cenário como esse, e por mais desconfortável que seja fazer esse tipo de afirmação, é preciso admitir que a execução de Marielle foi apenas mais um entre dezenas de episódios parecidos.
Existe, porém, um fato que torna esse crime diferente dos demais. Enquanto parece existir em torno da maioria dos crimes políticos um certo esforço no sentido de encerrar logo a discussão e colocar uma pedra sobre o assunto, no caso de Marielle, existe a tentativa de manter sempre acesa a chama que joga luz sobre essa tragédia.
DIFERENÇA DE POSTURA — Nem é o caso de mencionar, por exemplo, o atentado cometido em setembro de 2018 na cidade mineira de Juiz de Fora, em plena campanha eleitoral, que quase custou a vida do então candidato a presidente Jair Bolsonaro. A celeridade com que se procurou dar o assunto por encerrado e a rede de proteção que se formou ao redor do acusado de cometer o crime, o ex-militante do PSOL Adélio Bispo de Oliveira, levantou suspeitas de parcialidade. Para muita gente, uma série de elementos sugerem que o tratamento dado ao episódio pela Polícia Civil de Minas Gerais e pela própria Justiça foi superficial demais e mesmo assim deu esclarecido, de forma peremptória, um crime sobre o qual ainda pairavam muitas dúvidas…
É melhor ficar por aqui! Qualquer comparação entre o atentado que tirou a vida de Marielle e o episódio que causou um ferimento gravíssimo em Bolsonaro é arriscada: desperta paixões inflamadas e traz o risco de desviar a conversa do rumo que interessa. O que se compara aqui, portanto, não é a gravidade dos fatos, mas a diferença de postura em torno de cada um deles. O atentado contra Bolsonaro também é apenas um entre dezenas de episódios que, até para se eliminar as dúvidas que abrem espaço para suspeitas, mereciam ter sido discutidos com mais profundidade do que foram. No entanto, existe em torno deles um silêncio ensurdecedor.
Falando apenas de atos de violência que atingiram nomes importantes da esquerda, é o caso de fazer sobre dois assassinatos cometidos contra políticos do PT a mesma pergunta que se lança sobre o caso de Marielle. Quem mandou matar o ex-prefeito de Campinas, Toninho do PT? O crime aconteceu no dia 10 de setembro de 2001 — mas teve sua repercussão diminuída pelo atentado terrorista que, no dia seguinte, pôs abaixo as torres gêmeas na cidade de Nova York. Quem mandou matar, no ano seguinte, o então coordenador da primeira campanha de Lula à presidência da República, o ex-prefeito de Santo André, Celso Daniel?
O que impressionou nesses dois casos foi a pressa em dar o caso por resolvido e impedir qualquer iniciativa no sentido de se aprofundar as investigações sobre os assassinatos — logo classificados como “crimes comuns” pelos investigadores. No caso de Antônio Costa Santos, o Toninho do PT, a família jamais aceitou, mas teve que se contentar com a versão de que o crime foi causado por um desentendimento com criminosos no trânsito.
De acordo com as investigações, ele teria fechado um carro que transportava integrantes de uma quadrilha que atuava na região de Campinas. Por isso, foi metralhado. Sua viúva, Roseana Morais Garcia nunca aceitou essa versão. No caso de Celso Daniel, seu irmão Bruno, da mesma forma, jamais aceitou o enredo de que tudo se tratava de um crime comum, cometido por desentendimentos em torno da administração de Santo André.
Por falta de investigações mais profundas, muita gente se baseia nas suspeitas levantadas por Roseana e por Bruno e utiliza esses crimes para lançar suspeitas sobre políticos do próprio PT, que tiveram seus interesses contrariados por Toninho e por Daniel. Outros estranham o fato de a Polícia Federal, como aconteceu agora em relação a Marielle, jamais ter sido chamada a investigá-los. Felizmente a cobrança permanente sobre o mandante da morte de Marielle impediu que o crime caísse no esquecimento. A pergunta, portanto, continua válida: quem mandou matar Marielle?
INÊS DE CASTRO — O problema em relação ao assassinato de Marielle não está, portanto, em insistir na investigação e exigir que o fato seja esclarecido em seus mínimos detalhes. Isso é positivo e necessário! É justamente aí que está o problema da entrevista convocada e concedida por Flávio Dino para falar da delação premiada de Queiroz. O efeito do estardalhaço foi justamente o de criar uma expectativa enorme em relação ao esclarecimento de um fato grave como esse sem que a investigação tivesse avançado um milímetro sequer em relação ao ponto em que se encontrava no final do ano passado.
A delação premiada feita por Queiroz — é sempre bom insistir nesse ponto — não traz qualquer elemento esclarecedor em relação à identidade do mandante nem indica as razões concretas para que a ordem de execução tenha sido dada. Isso é fundamental para que se entenda a gênese desse crime. Mesmo porque, e sem querer de forma alguma reduzir a dimensão ou a relevância do trabalho que Marielle realizou em vida, é inegável que ele ganhou uma dimensão e uma visibilidade muito maior do que tinha depois do crime brutal de que foi vítima.
Assim como a lendária Inês de Castro, esposa assassinada de Dom Pedro I, de Portugal, que foi a rainha depois de morta cantada por Luís de Camões em seus Lusíadas, as circunstâncias brutais de sua execução reservaram para Marielle Franco um lugar permanente na história. E pela dimensão que sua imagem ganhou após a morte, continua rendendo frutos aos políticos de esquerda.
Sem qualquer intenção de colocar em dúvida a competência profissional de Anielle Franco nem de questionar sua capacidade de articulação política, é improvável, para ficarmos apenas com o exemplo mais visível, que ela se tornasse ministra de Estado se não fosse irmã de Marielle. A imagem de Marielle inspira respeito e ter estado ao lado rende prestígio. Da mesma forma: ter estado do lado oposto é sempre explorado como fato negativo e às vezes gera insinuações sem provas, que tentam incluir qualquer político que não seja de esquerda entre os suspeitos ou os cúmplices do assassinato.
Sempre que se toca na morte de Marielle, surge em paralelo a insinuação de que o ex-presidente Jair Bolsonaro ou seus apoiadores podem ter envolvimento com os milicianos que executaram o crime. Alguém imagina que, se houvesse algum indício nesse sentido, ele teria sido mantido em segredo por tanto tempo? Nunca! Se existisse, por menor que fosse, ele já teria sido tirado da gaveta, transformado em inquérito e exibido aos quatro ventos como uma prova indiscutível de participação no crime!
É preciso, até em respeito à memória de Marielle, concluir a investigação! Da próxima vez que o assunto for trazido às manchetes, que venha acompanhado pelo nome de quem deu a ordem e pela razão concreta para a execução do crime contra alguém que, além de ter toda uma carreira pela frente, tinha todo o direito conferido pela democracia de lutar por suas crenças e convicções! Voltar a falar no caso para que tudo fique como está, com todo respeito, dá a impressão de querer lucrar com a tragédia. E isso, com mais respeito ainda, significa matar Marielle mais uma vez.