Muitas medidas do governo parecem destinadas a eliminar mecanismos de controle do Executivo e de restaurar no Brasil a irresponsabilidade fiscal de antigamente
Se insistir no caminho que vem trilhando desde o início de seu terceiro mandato, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com a ajuda de alguns de seus auxiliares mais próximos, acabará oferecendo à oposição, numa bandeja de prata, algo que ela parecia ter perdido para sempre depois das eleições de 2022 e, principalmente, dos atos do dia 8 de janeiro. Isso mesmo! Se a direita mostrar força mais uma vez e, de repente, voltar a encher a Atlântica e outras avenidas do país com suas bandeiras nacionais e suas camisas da Seleção Brasileira, será mais por reação às atitudes do governo do que pela capacidade de articulação dos bolsonaristas e aliados.
Mesmo com a votação expressiva que Jair Bolsonaro recebeu na situação de “empate técnico” com Lula nas eleições do ano passado, a direita parecia acuada, sem força e sem argumentos para se contrapor ao novo governo. A posse do presidente, no dia 1º de janeiro, sob a promessa de fazer um governo orientado pelo amor e destinado a promover a união de todos os brasileiros, e, uma semana depois, a baderna levada adiante pelos desmiolados que invadiram as sedes dos três poderes, em Brasília, pareciam ter o efeito de uma pá de cal atirada sobre qualquer plano que a oposição pudesse alimentar de mostrar sua cara nas ruas.
E tudo permaneceria assim se o governo realmente tivesse cumprido a promessa de olhar para os interesses de toda a sociedade — e não apenas de seus aliados. Acontece, porém, que as ações adotadas por Lula, por seus ministros mais próximos e até mesmo por magistrados que parecem se guiar pela mesma cartilha do governo, parecem estar surtindo um efeito oposto ao que se pretendia alcançar com elas. Tiros disparados com o objetivo de deixar a oposição de joelhos — e de acabar com todo e qualquer vestígio das mudanças que houve no país desde o impeachment de Dilma Rousseff — estão saindo pela culatra e devolvendo a oposição a disposição para voltar para a raia.
É preciso cuidado para analisar esse cenário — mas, pelo que se vê até aqui, a oposição está ganhando força em cima dos equívocos do governo. Algumas das medidas anunciadas por Lula e por seus auxiliares, parecem destinadas apenas a querer eliminar algumas normas que tinham as digitais de Bolsonaro e, também, de seu antecessor Michel Temer. Ainda que algumas dessas normas merecessem ser revistas e aperfeiçoadas, o governo agiu como se estivesse interessado apenas no revanchismo e desejasse acabar com as políticas que havia antes. Essa postura, sem dúvida, foi vista como uma provocação e ajudou a eriçar os ânimos da oposição.
O governo acertou, por exemplo, ao propor o fim da política de teto de gastos, ao sugerir a necessidade de adotar um novo modelo de cálculo para o reajuste de combustíveis ou ao buscar um novo modelo para as concessões e de Parcerias Público Privadas. O problema é que, no meio das mudanças propostas, apareceram medidas destinadas a eliminar alguns mecanismos legais que limitavam as ações do Executivo e as exigências de transparência típicas da democracia — demonstrando a intenção de fazer o país retroceder ao tempo em que o governo fazia o que bem entendia sem ter que prestar contas de suas ações para quem quer que seja.
MANIPULAÇÃO E APADRINHAMENTO
O resumo da ópera é que, em muitos casos, o governo pecou por falta de habilidade política e de clareza de intenções. E deu à oposição o que ela parecia ter perdido de vez por todas: motivos para reagir. E esses motivos invariavelmente mostram que, por trás de medidas tomadas com a justificativa de corrigir alguma rota equivocada, sempre havia a intenção de se obter alguma vantagem suspeita. Vamos aos exemplos.
O novo sistema de cálculo do preço dos combustíveis é o primeiro deles. O modelo anterior se baseava na cotação do petróleo e tornava obrigatório o reajuste da gasolina, do diesel e do gás de cozinha a cada alteração no preço do barril no mercado internacional. Isso era um erro! Como grande produtor de petróleo, o país não tinha razões para orientar sua política de preços apenas por esse critério. Era preciso incluir outras variáveis no cálculo do preço dos combustíveis nas refinarias.
A questão é que, para substituir o que precisava mesmo ser mudado, o governo adotou um conjunto de normas vagas, incompreensíveis e obscuras. Na prática, elas parecem abrir espaço a mesma manipulação de preços que, para tentar manter a popularidade do governo, quase levou a Petrobras à falência pelas mãos de Dilma Rousseff.
Outras alterações propostas em outras áreas levantaram suspeitas igualmente sérias. Nesta semana o Congresso apreciará, em regime de urgência, o Arcabouço Fiscal proposto para substituir o chamado Teto de Gastos (que já tinha cumprido seu papel e, nos últimos anos, vinha criando mais problemas do que soluções para o país). O problema é que o sistema proposto para substituir o teto traz embutida uma armadilha perigosa para o controle das contas do governo.
Ele, na prática, elimina o dispositivo da Lei de Responsabilidade Fiscal que pune com o impeachment o político que gastar mais do que o valor previsto no orçamento. Ao contrário de Dilma, que pagou com a perda do mandato as pedaladas fiscais que deu para fechar as contas de seu governo, Lula estaria obrigado, caso o dispositivo seja transformado em lei e ele ultrapasse as metas de gastos, apenas a escrever uma carta se desculpando pelo estouro nas contas…
A lista de providências que parecem destinadas a fazer o país caminhar em direção a seu passado de descontrole e mau uso sistemático do dinheiro público não para por aí — mas, felizmente, nem todas as tentativas do governo de manipular a situação em seu próprio benefício têm dado certo. Dias atrás, como já foi dito neste espaço no domingo passado, a oposição impediu o governo de mudar por decreto alguns dispositivos do Marco Regulatório do Saneamento e, assim, favorecer as estatais ineficientes que travam o avanço do setor em estados como Bahia e Rio Grande do Norte.
Se a emenda prosperasse, o retrocesso regulatório seria monstruoso — e o país voltaria ao tempo em que a manipulação e o apadrinhamento político tornavam o acesso da população a alguns serviços públicos ainda mais precário do que é hoje. A resistência foi grande e na semana passada, talvez para não impor uma nova derrota ao governo, o relator da matéria, deputado Isnaldo Bulhões Jr. (MDB/AL), deixar claro que a MP 1154 irá à votação sem o penduricalho que transferia para o Executivo a autoridade das agências reguladoras.
AMBIENTE HOSTIL
A defesa do Marco do Saneamento ou da autonomia das agências reguladoras não são, evidentemente, bandeiras exclusivas da direita. Mas, por terem sofrido ataques de um governo de esquerda, como é o de Lula, passaram a engrossar o repertório de argumentos que têm estimulado as ações da oposição no parlamento e inflamado o debate na sociedade. O fato é que o apetite exagerado do governo em eliminar os mecanismos que a democracia criou para manter as ações do Executivo dentro de parâmetros controláveis e transparentes tem estimulado o surgimento, por enquanto apenas no Legislativo, de um ambiente que parecia impossível cinco meses atrás.
Antes de o governo completar seis meses no poder, o Congresso Nacional — que tem por tradição sempre dizer sim a tudo que um governo novo se propõe a fazer em seu primeiro ano de mandato — vem reagindo e se recusando a aceitar medidas que parecem destinadas a dar ao Planalto mais poderes do que ele já tem. E a cada dia que passa surge um novo ingrediente para mostrar que o ambiente, que já não é dos mais tranquilos, tende a se tornar ainda mais aquecido nos próximos meses.
Os sinais estão por toda parte. Nunca antes na história deste país o Congresso instalou tantas Comissões Parlamentares de Inquérito simultâneas. Na melhor das hipóteses, elas dividirão as atenções e criarão obstáculos para a tramitação mais acelerada das medidas que o governo terá que adotar para cumprir os compromissos que assumiu na campanha eleitoral.
Além da Comissão Mista que investigará os atos do dia 8 de janeiro, outras três foram instaladas na semana passada. Entre elas, a mais incômoda para o Planalto é a que investigará a tomada de terras e a depredação de propriedades rurais pelos invasores do MST — movimento que conta com apoio, simpatia, verbas e até mesmo com vários cargos no governo federal.
Ao contrário do que aconteceu com a comissão destinada a investigar as arruaças do dia 8 de janeiro, em que o governo conseguiu instalar parlamentes leais nos principais cargos e, com isso, tentar manter as investigações distantes dos indícios desconfortáveis de envolvimento de autoridades federais na facilitação dos atos, a do MST ficará nas mãos da oposição. O presidente será, para desgosto do governo, o deputado Tenente Coronel Zucco (Republicanos/RS). E o relator, para um desgosto ainda maior, o ex-ministro do Meio Ambiente do governo Bolsonaro, deputado Ricardo Salles (PL/SP).
CANGOTE BAIXO
Ainda é cedo para prever as consequências dessas comissões e ninguém pode dizer quem ganhará ou quem perderá com elas. O certo é que a incapacidade de resistir à instalação de duas comissões que revolverão temas incômodos já pode ser vista como derrota do governo. Isso indica que a conversa, daqui por diante, se tornará mais difícil e seguirá um rumo diferente daquele que o governo pretendia. E Lula, que em seus dois primeiros mandatos se habituou a lidar com uma oposição de cangote baixo e sem qualquer desejo de reagir às suas medidas, parece ter sido pego de surpresa. E tem reagido a essa situação com atitudes que, com todo respeito, não fazem justiça à fama de político habilidoso e agregador que ele construiu ao longo da carreira.
Com exceção do Arcabouço Fiscal — que é de fato um projeto importante e, livre da tentativa de driblar a Lei de Responsabilidade Fiscal, pode trazer avanços importantes — tudo o que o governo fez até aqui foi gastar sua capacidade de negociação no Parlamento com a defesa de interesses menores, como o projeto que propõe a volta da censura. E, para levar seus propósitos adiante, tem abusado da generosidade na liberação de emendas parlamentares e no loteamento de cargos na administração federal. O problema é que, quanto mais o governo oferece, mais os “aliados” de ocasião demonstram apetite e querem mais.
Na semana passada, foi divulgado que, para abrir mais vagas para os apadrinhados de seus apoiadores na estrutura governamental, o governo pretende ampliar o número de superintendências da Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf) — uma empresa pública vinculada ao Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional. A ideia é criar pelo menos duas novas Superintendências—uma em Belo Horizonte e outra em Recife…
Ainda não se sabe quanto a brincadeira custará — mas ninguém em Brasília se mostra preocupado com isso. O certo é que, para um governo que parecia ter na capacidade de articulação política um de seus pontos mais fortes, o que mais tem transparecido até aqui são ações marcadas pela improvisação e pelo amadorismo.
Ainda é cedo para prever se os desacertos demonstrados até aqui deixarão o governo imobilizado ou se Lula conseguirá tomar as rédeas da situação para, como prometeu, governar para todos e promover o desenvolvimento que o país necessita. O fato é que seu governo já existe há quase seis meses e não foi capaz de aprovar até aqui uma única medida estruturante e capaz de indicar uma mudança positiva na vida dos cidadãos.